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Com prazer estou para fazer a Tua vontade

Prestes a assumir a Catedral, Padre Rafael Solano comenta o trabalho na Paróquia São Vicente de Paulo

O documento assinado pelo então Arcebispo Dom Orlando Brandes, no dia 27 de janeiro de 2014, nomeava o reitor do seminário Paulo VI, José Rafael Solano Durán, como o novo pároco da Paróquia São Vicente de Paulo. Era a primeira experiência do colombiano de Neiva como pároco em uma comunidade católica.

A nomeação entraria em vigor oficialmente no dia 01 de fevereiro daquele ano, tendo validade até fevereiro de 2019. Porém, o atual Arcebispo de Londrina, Dom Geremias Steinmetz, anunciou no final de dezembro de 2017 a transferência de mais de 30 padres. E o Padre Rafael foi incluído nesta lista, mesmo antes do término do seu período paroquial na São Vicente de Paulo. A sua nova paróquia será a Sagrado Coração de Jesus, simplesmente a Catedral Metropolitana de Londrina.

Gentilmente o padre concedeu entrevista e realizou um balanço de sua gestão na Paróquia. Confira a seguir:

Muitos estudos e trabalhos no seminário

Desde a sua ordenação presbiteral, em 1996, até a primeira experiência como pároco, Padre Rafael dedicou quase 14 anos à sua formação, realizando cursos de especialização em Bioética, mestrado e doutorado em teologia moral – todos fora do país – o que lhe garantiu oportunidades para lecionar na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Londrina e em cidades como Curitiba e Cascavel. No Brasil, o Padre também foi reitor do Seminário Propedêutico São José (2004), enquanto contribuía nas paróquias nos distritos de Irerê, Paiquerê e São Luiz, e na paróquia Nossa Senhora da Luz, no jardim do Sol (2005). Posteriormente, foi reitor do Seminário Paulo VI entre os anos de 2005 a 2013.

“Foram anos muito bons. Eu diria que o seminário me deu a graça de compreender a riqueza da vida sacerdotal em comunhão. E, pela graça de Deus, surgiu a parte acadêmica. Considero que a igreja, ao longo dos meus oito anos de formação, sempre foi me ‘cutucando’ para esta dimensão”, disse.

Dom Orlando, o sorriso e o corredor

Em junho de 2013, como professor da PUC e reitor do Seminário Paulo VI, Rafael passou seis meses na Europa, onde concluiu o seu pós-doutorado em Bioética. “Quando voltei ao Brasil, conversei com o presidente da organização dos seminários do Sul II da CNBB, e tive outros diálogos muito bons, entre eles com o meu diretor espiritual, e pensei: ‘creio que estou bem em minha formação’”. Estendendo o diálogo com o Arcebispo na época, Dom Orlando Brandes, ele ouviu: “Quando voltar de viagem, você será pároco”.

Voltando de seu compromisso em Paris, o padre relembra com bom humor como recebeu a notícia de que iria para a Paróquia São Vicente de Paulo. “Quando voltei da França, estávamos no mesmo corredor da Cúria Arquidiocesana eu e o Padre Joel (Medeiros, pároco da São Vicente entre 2007 a 2014), quando entra o Dom Orlando, sempre com o seu jeito bem humorado, e disse para o Joel. ‘Joel, você está pela primeira vez do lado do seu sucessor’.

 Então foi assim que assumi a Paróquia, no dia 24 de janeiro de 2014. “E, bom, aqui já se passaram quatro anos. Disse na primeira missa, quando comentei com a comunidade que estava sendo transferido, que a São Vicente me ensinou a ser pastor, a ser pároco e me deu luzes imensas para administrar”. “Das coisas lindas? Os jovens, os adolescentes, mas sobretudo os doentes. Posso dizer que se há algo de especial no meu ministério nesta Paróquia, foram as vezes, inúmeras, que fui visitar um doente ou alguém que estava morrendo. Despedir as pessoas do mundo, na presença de Deus, foi muito significativo”, completou.

Erros e acertos

Já conhecido por não fugir de nenhum tipo de assunto, o padre também respondeu sobre o que considerava ter sido seus erros na gestão. “O primeiro talvez seja, sem dúvida nenhuma, o fato de não ter muito tempo disponível, por ter muitas atividades em simultâneo. Com isso, talvez houve superficialidade da minha parte. O que me assusta no futuro é não mudar a mentalidade, tenho muito medo de fixismo (na biologia, tal como a palavra indica, considera que as espécies são fixas, permanecendo imutáveis ao longo do tempo sem se modificarem). Não podemos olhar apenas por uma janela e achar que ela é a única que existe, esquecendo que outras pessoas podem abrir outra janela aqui e ali. Isso me assusta e talvez foi um erro meu não ter trabalhado a formação das lideranças nesse aspecto”, declarou.

Já sobre os acertos, Rafael citou os trabalhos nas comunidades. “Primeiro acerto foi termos saído daqui para o (jardim) Nova Esperança; tem sido um presente para a comunidade. A independência e a autonomia da Capela Mãe da Divina Providência foram acertos; pela misericórdia de Deus, vemos uma comunidade que está andando sempre para frente. Acerto em cheio também foi o terreno da São João XXIII a um preço tão baixo na Gleba Palhano!” (risos). Os 12 setores também foram uma imensa alegria e os dois diáconos – Ricardo e Sirineu – são uma mão na roda. Foi uma comunidade presbiteral, bonita. Tivemos uma relação boa, de muito respeito”.

As relações com as congregações religiosas também foram lembradas. “As claretianas são os anjos guardiões desta Paróquia, como eu gosto de chamar. A São Vicente nasceu na sombra do Instituto Coração de Maria e isso não pode se desligar jamais. E as indianas (salesianas) são uns amores de pessoas. Outra cultura, outro mundo. Adoro porque falamos em inglês, nos entendemos em português e decidimos em espanhol (risos). É uma coisa super agradável”, comentou.

Transferência

No dia 21 de dezembro, as já especuladas transferências de padres da diocese foram confirmadas pelo Arcebispo. “A igreja não é monárquica, é hierarquica-participativa. O esquema na Igreja chama-se igreja em comunhão. O bispo é um leitor de carismas e leu o que aconteceu na Arquidiocese, já que cada pastor tem um caráter diferente. E ele é assistido por mais de 10 conselhos, entre eles existem 2 principais: o conselho dos presbíteros e o conselho dos consultores. Quando Geremias chegou aqui, foi dialogando com diferentes realidades, situações, e a principal, senão a preponderante, foram as paróquias. Tivemos a primeira reunião, que não foi sobre transferências; a segunda, também não, e a terceira tocou no tema. Foram colocados, em uma folha, todos os padres que estavam há mais de 10 anos nas paróquias. Evidentemente eu não estava nessa lista. Eu, como tantos outros, só completaríamos em 2019 os 5 anos canônicos estabelecidos pela profissão. Como não entrei na lista, apenas escrevi a ata, porque sou o secretário do conselho dos presbíteros. Na quarta reunião, ocorrida no final de novembro, já com tudo organizado para quem iria assumir a Catedral, alguém colocou o meu nome. Eu rezei, pensei e, na reunião seguinte, aceitei. Se isso é o que quer a igreja, eu assumo com muito prazer”.

Bernardo Gaffá

Entre as mudanças de padre nas comunidades estava a transferência do Monsenhor Bernardo Gaffá, que ficou por mais de 30 anos à frente da Catedral. “Admiro profundamente a figura do Bernardo. Considero ele como eu, um missionário, já que deixamos a nossa terra e viemos para o Brasil. Admiro a sua capacidade organizativa e o que me dá satisfação, tranquilidade, é que uma das coisas que sempre prezei na vida presbiteral foi que a gente aprende com quem vai na frente. Então tive a oportunidade de aprender diversas coisas com ele”.

Futuro

O padre sempre gostou de deixar claro que “o pároco um dia se vai, mas a comunidade fica”. Perguntado sobre o futuro da paróquia e de suas capelas, Rafael respondeu sobre os seus substitutos e do que a comunidade vicentina necessita.

“A primeira coisa: a São Vicente de Paulo ganhou dois grandes presbíteros. Romão, um excelente administrador e visionário na organização. Tive a grata oportunidade de ser professor dele – eu, um padre novo, e ele, um seminarista – no curso de cristologia, e lembro dos seus trabalhos sempre impecáveis. Um homem muito organizado. Já Limeira foi o primeiro padre da Arquidiocese que convidou os colombianos para almoçar quando chegamos aqui no Brasil. É uma afetividade muito bonita. A paróquia vai continuar nesse rumo que é a caridade. Limeira vai focar na Divina Providência e o Romão vai tocar, sem dúvida nenhuma, o projeto da São joao XXIII, que é o futuro da Palhano”.

“Este ano tem que ser finalizada a igreja no Nova Esperança, que já está mais da metade construída. Temos que ir para frente com isso. O grupo de escuta precisa crescer mais, além dos projetos em volta da Cáritas, que são urgentes na minha opinião”, expressou.

Expectativa de assumir a Catedral

“Tenho a responsabilidade porque é a mãe de todas as Igrejas. Deus vai me dar um auxiliar nota dez, que é o padre Dirceu Júnior dos Reis, e que foi um dos melhores alunos que tive, e do padre Antonio Fiori que, além de uma presença amiga e inteligente, é confessor todos os dias na catedral. Quero verdadeiramente partilhar e sentir com as pessoas o que vivi aqui na São Vicente de Paulo. Seria o candidato eu? Não. Mas tudo bem, não sou o candidato (favorito) de ninguém e isso me deixa em paz. A Catedral de Londrina tem uma tradição lindíssima à figura de dom Geraldo, porque pensou na construção dela como uma tenda. E tem a ver com a expressão de ‘Igreja em Saída’. Essa é a minha perspectiva. Vou pedir a Deus que me dê a graça de celebrar a missa todos os dias de manhã na Catedral. Eu gosto de celebrar de manhã, me faz bem. Também quero sentar-me duas vezes na semana para confessar. Parafraseando o Salmo 40:8 – “com prazer estou para fazer a Tua vontade”.

As últimas celebrações do Padre Rafael Solano como Pároco da São Vicente de Paulo estão marcadas para o dia 04 de fevereiro (domingo). A sua cerimônia de posse na Catedral acontece no domingo seguinte, dia 11 de fevereiro, às 10h30.

Por Edson Neves
Fotos: Angelita Santini Niedziejko

 

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